Das dificuldades de morar no exterior, voltar para o Brasil é a maior delas

Não digo que voltar para o Brasil é dificil por causa do Brasil em si. Eu amo esse país, mesmo. Posso comparar minha volta para o Brasil como um sapato que não me serve mais. Apesar de eu amar muito esse sapato, apesar de eu ter vivido tantas coisas boas com ele, eu já não me encaixo mais nele. Só que a culpa não é do sapato coitado, é do meu pé que cresceu.

Na volta, tudo é assutadoramente familiar e mais assutadoramente ainda estranho. As ruas estão ali, iguaizinhas, os comércios praticamente os mesmos. A casa, intocável, como se o tempo tivesse parado no exato momento em que eu me despedi.

É isso. Tudo, absolutamente tudo parece exatamente igual. A sensação que eu tive foi que, eu vivi num mundo paralelo, enquanto o mundo que eu deixei parou. Como num vídeo game, pausou quando eu saí, e foi pressionado o play quando eu voltei.

É claro que algumas coisas mudaram. Alguns amigos estão se formando, alguns familiares trocaram de emprego, as crianças da família estão assustadoramente grandes. O prédio sofreu uma reforma aqui outra ali, agora eu preciso de senha para entrar em casa. Nada disso me tirou a sensação do “pause e play”.

Eu amo a minha família, eu amo os meus amigos e até amo a cidade onde eu cresci. Eu sempre vou amar. Mas na volta para o Brasil eu simplesmente senti que o sapato tá apertado demais. Eu não me encaixo mais. A verdade é que eu já não me encaixava quando eu saí, aliás é exatamente esse o motivo que me fez deixar o Brasil. Como tentar se encaixar agora em algo que já não servia mais antes? É por isso que eu nem tento. Ciclos, fases, momentos. Esse é o meu agora e eu estou exatamente aonde eu escolhi estar.

Para falar a verdade o que mais me assustou foram as pessoas. Todas, absolutamente todas, me fizeram as mesmas perguntas. Como se a vida tivesse um cronograma e eu estivesse atrasada. “E a faculdade, vai voltar já?” “E trabalho, já começou a procurar?” “E agora, quais são os planos?”. Calma aí pessoal, eu cheguei faz 2 semanas. Eu não estou atrasada e se eles pudessem imaginar o meu crescimento e aprendizado morando no exterior sozinha, dúvido que pensariam dessa maneira. Também não importa, se tem uma coisa que eu aprendi morando fora é que nessa vida sou eu e eu. Sem tirar o mérito das pessoas queridas que tanto me ajudaram. No fim o meu destino e a minha felicidade não depende de ninguém e muito menos da aprovação de ninguém.

Para o espanto da maioria, eu não vou voltar para a faculdade já. Para o espanto da sociedade, carteira assinada para mim não é artigo de luxo e muito menos um sonho. Eu é quem deveria ficar espantada com esse molde da sociedade. Eu é quem deveria estar espantada de ver tanta gente se formando aos 21 ou 22 sem a menor ideia do que está fazendo da vida. Mas eu não me espanto, porque todo esse padrão da sociedade soa tristemente familiar.

Hoje, a casa da mãe ainda é o lugar mais acolhedor do mundo, mas é da mãe e não minha. Hoje é absurdamente mais satisfatório lavar minhas próprias roupas do que pôr num cesto de roupa suja sem ter o controle de quando vão ser lavadas ou de quando vou poder usar de novo. Depois que a gente cria asas amigo, é muito difícil voltar para a gaiola. A dificuldade de voltar para o Brasil, não é o Brasil. A dificuldade de voltar para o Brasil é tentar se encaixar numa vida, num padrão, numa rotina que claramente já não serve mais. Por isso, se essa é a sua situação meu conselho é: não tente. Se você não é mais a mesma pessoa de quando saiu do Brasil porque deveria voltar e tentar ter a mesma vida?

Pâmela Vicente

Pâmela, aos 20 embarcou pra uma viagem que mudaria sua vida pra sempre. Conheceu o mundo lá fora e não parou mais. Se descobriu. Descobriu que é possível ser feliz 7 dias por semana ainda que a vida seja uma loucura. Quer compartilhar tudo o que vê e vive. Espera que compartilhando, inspire outras pessoas a serem felizes 7 dias por semana.

Website: https://www.instagram.com/pamvicentee/

41 Comentários

  1. Cledson

    Parabéns belo texto 👏🏼👏🏼

  2. Rebeka

    É engraçado que sinto isso antes mesmo de chegar no Brasil… a certeza de que já não posso viver algo que ta pequeno e pra trás pra mim é tão grande e segura que já decidi que vou pra muitos lugares, mas não pro Brasil! Mas sabe o que é pior nisso? Você ver que seus familiares mais próximos tão involucrados nesse atrasado junto com a cultura brasileira que nos faz crescer retardados…

    • Oi Rebeka,

      É mesmo muito dificil essa parte, os amigos e a família simplesmente não entendem o nosso estilo de vida, não entendem as escolhas, acham que é “preguiça” e que estamos atrasados… Mas o negócio é sempre ter certeza dentro de si de que está fazendo a coisa certa e seguindo seu coração, não importa o que pensem, no fim vai ser você e você 🙂

  3. Rebeca

    Nossa! Estou vivendo exatamente isso… Fazem três meses que voltei para o Brasil e a sensação é essa mesmo… “A gaiola pequena para um pássaro grande” ” o sapato que não cabe mais”
    Pior é o olhar das pessoas sem entender tamanha mudança, mas ninguem quer que elas entendam… Queriamos que elas sentissem, daí saberiam que esse tal olhar não faz diferença pra quem já não se importa com padronização da sociedade.

  4. Bravo! Digno, muito digno esse seu texto. É o que me pergunto todos os dias, exatamente todos os dias! Mesmo não tendo uma experiência de morar fora basta me deparar com situações corriqueiras que me pego com vários questionamentos: como assim eu devo ter dois celulares para poder andar na rua, pois um é para o assaltante? Só para exemplificar. Parabéns mais uma vez pelo texto. Saúde e paz sempre!

  5. Julia

    É assim mesmo depois que vamos morar fora e o pior é que só quem mora ou já morou entende a gente. Eu morei 3 anos fora, fui quando ainda era menor de idade, voltei ao Brasil e fiquei com depressão por 2 meses, não queria voltar nunca mas foi preciso por causa do visto. Mas o que me fez manter a calma foi a certeza de que eu iria embora de novo, dessa vez para outro país, sou assim não aguento ficar no mesmo lugar por muito tempo. Não consigo seguir o que a sociedade espera de mim, não nasci pra estudar, faculdade, trabalhar, casar e ter filhos como muitos dizem que é a lei da vida. Nasci pra curtir, viajar, conhecer o mundo, ser independente e não me prender a nada nem a ninguém. Pra isso que estamos ai pra viver a vida.

    • Oi Juliana,

      A volta é realmente dificil e concordo contigo, padrões impostos pela sociedade também não é comigo!

      Volte sempre 🙂

  6. Diongleidson santos

    Uall muito triste mesmo tive a mesma sensação moro nos usa 🇺🇸 a 15 anos vim pra cá con 18 hj tenho um filho aq con 10 anos uall estive no brasil 🇧🇷 en 2015 me assustei com tudo isso o padrão de vida as coisas tudo sei lá vc não tem seguridade as pessoas sempre querendo saber quem é vc e ai fulano ganho muito dinheiro se deve estar rico coisas que nem me preocupo tanto simplesmente me preocupo en viver ben coisa que não está tão fácil en nenhum lugar mas aq pelo menos vc vive vc Fas sua vida vc tem uma esperança voltando pro brasil e como começar do zero sem esperança mesmo com dinheiro vc sabe que tem mas não tem certeza que vai da certo 😌

  7. Regina Mercado

    Pamela, Parabens pelo texto! Obrigada por ter colocado em palavras os sentimentos de muitos. Um abraco e …just keep swimming…

    • Oi Regina,

      Muito obrigada! Always <3

      Volte sempre 🙂

  8. Joao Junior

    Legal sua maneira de textualizar.
    Na verdade, quando nos colocamos em risco e prova de novas experiências, nunca mais seremos os mesmos.
    Encorajo todos a buscarem suas “provas” e serem pessoas mais interessantes.

    • Oi João,

      Exatamente! Obrigada pelo feedback 🙂

  9. Bruno

    Sei lá, mas esse texto parece escrito por alguém “mimado”. Quando eu vivia no Brasil eu já tinha todas as responsabilidade e morava sozinho. Hoje, voltando para o Basil, só me sinto de volta à realidade e à minha volta tá tudo diferente. As pessoas mudaram, coisas mudaram. Me sinto em casa de

    • Oi Bruno,

      Sinto muito pela interpretação que tu teve. Expressei apenas a minha visão sobre a volta pro Brasil, obrigada pelo feedback, espero que curta os outros artigos.

      Volte sempre 🙂

  10. Lucas Neves

    Muito legal, Pâmela. Parabéns!
    Como foi, você saiu do Brasil com um plano?
    Comprou casa lá fora, trabalhou..?
    Penso em viver uma aventura assim.

    • Oi Lucas,

      Eu saí do Brasil para estudar e acabei extendendo 1 ano a mais pois consegui visto de trabalho. Não comprei casa não, sempre morei de aluguel e o dinheiro que juntei eu viajei pela Nova Zelândia, Indonésia e Camboja 🙂

      Obrigada pelo feedback e volte sempre!

  11. Roger

    Esse sentimento comum experimentam todos que deixam um lugar e retornam para ele depois – nao precisa ser o Brasil e nao precisa deixar o pais. Por exemplo, se voce tivesse simplesmente ido para outra cidade fazer faculdade, e depois de alguns anos voltasse para a casa de sua mae (nao mais sua!), vamos dizer que por falta de emprego em sua area, sentiria exatamente o mesmo. Que voce cresceu e nao cabe mais naquele “sapato”. Entao a “dificuldade” nao eh de morar em outro pais, mas sim de regredir na vida – a um estagio anterior no qual nao viviamos mais.

    • Olá Roger,

      Concordo contigo, toda experiência é válida e importantíssima, não necessariamente fora do país. O importante é se fazer o que gosta e ir em busca dos sonhos sempre e não apenas seguir o “modelo” imposto pela sociedade.

      Obrigada pelo feedback, volte sempre 🙂

  12. Bom, a questão nem é “O Brasil” mas sim de onde eu vim.
    O problema, como você disse, não é o Brasil, mas nós mesmos. Nós que queremos mais que viver numa cidade pequena, na mesma rua onde crescemos, no mesmo bairro que estudamos e nesse lugar que quase conhecemos tudo e todos.

    Pessoas como nós querem ter uma vida independente onde poderemos ser nós mesmo sete dias por semana, e se isso significa ser feliz sete dias por semana, que seja. Dias ruins também vão estar lá, com certeza, perdi a conta de tanto estresse passei sozinho, mas eles também estavam lá antes e ter a familia perto não mudava nada, afinal eram meus estresses.
    A saudade vai bater na porta também, vai te fazer vontade de voltar, dai você volta fica um fim de semana e já está ótimo, tchau e benção.

    Uma vez que a gente sai e volta não dá mais para ver as coisas como eram antes, a gente mudou e as coisas não. Mas a gente não quer saber e quer que tudo mude também, mas não vai mudar. Então a gente faz o que? Sai de novo pra dar umas voltas por aí, onde tudo é novo e quem tem que mudar é você para se adaptar. Só não dá mais pra ficar na gaiola vendo a portinha aberta e não querer sair voando pra cada vez mais longe.
    O sapato ficou pequeno, a gente até tenta apertar pra caber mas está cada vez mais difícil.
    Adorei o seu texto e principalmente a parte que você não despreza e trata o Brasil como um lixo, como muitos outros fazem.

    Parabéns e voe mesmo garota.

    • Oi Johnny,

      Muito obrigada pelo comentário, é exatamente isso. Nunca desprezei o Brasil e nunca farei isso, nosso país é lindo e cheio de coisas maravilhosas e únicas. O problema nunca é o lugar e nunca são os outros, somos nós sempre, já dizia o ditado “os incomodados que se retirem” haha.

      Volte sempre 🙂

  13. Bernardo

    Muito legal o texto! Já morei fora três vezes e agora dificilmente volto.

    Sua analogia é muito boa e colocada de forma muito elegante! Parabéns pelo texto!

    • Oi Bernardo,

      Muito obrigada pelo feedback!

      Volte sempre 🙂

  14. Lubna Patriny

    Esse texto resume muito! Eu amo o Brasil, amo São Paulo, mas vejo que é um lugar pequeno demais pra mim, é o lugar que você se esforça muito e não é reconhecido nem recompensado. Todos que me preguntam “aí, eu devo ir morar fora?” A minha resposta é mais que sim, é um choque de realidade absurdo! Amei o seu Texto Pamela. Beijão

    • Oi Lubna!

      Muito obrigada pelo feedback!

      Volte sempre 🙂

  15. Renata Calixto

    Depois de oito anos na Australia, voltei a morar no Brasil. Não durei dois meses.

    O mais engraçado foi que uma vez conversando com amigos, e um deles mencionou: ‘Sua casa é no mesmo lugar, né?!’ Ao que eu respondi: ‘Não, há a casa da minha mãe é ali, não a minha casa.’
    As pessoas não entenderam a minha resposta, mesmo depois que eu expliquei, mas não os culpo eles não vivenciaram tudo o que eu vivi.

    Parabéns pelo texto.

    • Oi Renata,

      O sentimento é mesmo esse! Muito obrigada pelo feedback 🙂

      Volte sempre!

  16. Gilmar

    Eu voltei ao Brasil o ano passado e tenho essa mesma sensação todos os dias.

    • Oi Gilmar,

      Realmente a sensação não passa, o negócio é mudar o rumo de novo, não necessariamente sair do país, mas encontrar um novo sentido pra vida, mudar e recomeçar nunca é demais 🙂

      Obrigada pelo comentario, volte sempre!

  17. Marise Schadeck

    ola Pamela
    Seu texto descreve o que venho sentindo. Atualmente estou morando na Argentina e,apesar de ser em uma ciade proxima a minha no Brasil me sinto assim cada vez que venho para “minha casa” no Brasil. Vivo em Posadas, na Argentina e mantenho a minha casa em Santo Angelo no Rio Grande do Sul. A distancia é 225km e venho a cada 15 dias ao Brasil e parece que estou em outro planeta. Sinto como se tudo tivesse ficado do mesmo jeito que estava antes. Não tenho vontade de voltar. Amo ao meu País…mas e uma sensação de nao pertencer mais a ele.

    • Oi Marise,

      Que bacana, quero muito conhecer a Argentina!

      Obrigada pelo comentário, volte sempre 🙂

  18. Maria Eduarda

    Q texto maravilhoso!! Estou fazendo um intercâmbio E super me indentifiquei! Já n quero mais voltar! Quero conhecer o mundo e tudo q ele tem a me oferecer!! PARABÉNS pela sua escolha!

    • Oi Maria Eduarda,

      Aproveita muito cada momento, serão uma das melhores lembranças da tua vida! Viajar é incrível mas o intercâmbio deixa uma marquinha especial no coração pra sempre. Obrigada pelo comnentário, volte sempre <3

  19. josias lima dos santos

    muitas verdades ali, eu cheguei em junho e já estou com o visto de trabalho nas mãos, e confesso que não vejo hora de chegar logo o dia de embarcar de novo rumo a um lugar novo, uma cidade nova outra cultura outros desafios, mais frio na barriga ainda é o mesmo da primeira viagem . abraços

    • Oi Josias,

      Vai ser incrível com certeza!

      Obrigada pelo feedback, volte sempre 🙂

  20. Sergio

    Eu não digo nem de morar fora, eu sou do RJ e morei quase 4 anos sozinho no interior do RS, voltei no início do ano para a casa dos meus pais e tenho o mesmo sentimento que você descreveu no último parágrafo, quanto mais o tempo passa ao invés de me acostumar sinto vontade de largar tudo o que tive que retomar aqui e ganhar o mundo.

    • Oi Sergio,

      Exato, falo de morar fora por ser minha experiência, mas toda e qualquer mudança em direção a independência, liberdade e evolução são transformadoras!

      Obrigada pelo comentário, volte sempre 🙂

  21. Antoine

    Discordo em parte do ponto de vista, qualquer pessoa que saia do seu pais terá essa sensação estranha de não caber no molde na hora do regresso. Fiz o caminho inverso em 2004, sai do sul da França para morar 10 anos no Brasil, em 2014 quando voltei para Europa, tive também a sensação (provavelmente subjetiva e equivocada), de reencontrar um continente pior do que aquele que tinha deixado. Por isso acredito que não é o Brasil que permaneceu pequeno e obsoleto, são as referências pessoais do expatriado que mudaram com a experiência.

  22. Muito legal seu site, salvei aqui nos favorito, escreves bem, adorei suas experiencias, virei seguidor : )

    Att, Carlos A.Witte – Macetes Escondidos

    • Oi Carlos,

      Feliz pelo comentário, obrigada! 🙂

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