Sobre compras perdidas e a honestidade neozelandesa

Honestidade neozelandesa. Esse não era um tema que eu planejava abordar apesar de já ter tido algumas experiências positivas sobre o assunto. Mas o que aconteceu comigo ontem, merece um texto.

Sacolas esquecidas dentro do ônibus

Imagina você, depois do trabalho fazendo suas compras da semana, depois de um dia de 10 horas de trabalho. Você pega 1 trem e 2 ônibus pra chegar em casa, com sacolas de compras. Aí você está tão cansada e distraída que quase perde o ponto de casa. Num pulo, se levanta aperta o botão de parada e desce. Aí imagina que quando você chega em casa e vai preparar algo pra comer, lembra que todas as sacolas ficaram no ônibus.

Bom, isso aconteceu comigo há dois dias atrás. É claro que eu fiquei chateada de perder toda a minha comida da semana, porque me custou algumas boas horas de trabalho. Mas me conformei em pouco tempo. O pior estava por vir. Lembrei que, junto das sacolas também ficou minha jaqueta e um documento importante da empresa que eu trabalho e tinha que assinar. Aí bateu o desespero. Sabia que eu conseguiria recuperar qualquer coisa perdida aqui na Nova Zelândia, porque a honestidade neozelandesa é algo indiscutível. Mas, como eram compras de mercado, achei que alguém pudesse pegar sem se dar conta de que dentro também tinha um documento e uma jaqueta e simplesmente não desse bola. Porque fala sério, quem imaginaria que o dono fosse  atrás de compras de mercado esquecidas no ônibus?

Um motorista de ônibus extremamente gentil

No dia seguinte liguei lá no escritório da empresa do ônibus que opera na região. Expliquei que eu esqueci as compras e pro meu alívio, as sacolas estavam lá! Santa honestidade neozelandesa! Decidi que depois do trabalho eu iria buscar apesar de o escritório ser super longe e em uma região que eu nunca fui. Coloquei no google o endereço e verifiquei as linhas de ônibus que eu tinha que pegar pra chegar até lá. Quando entrei no primeiro ônibus, perguntei pro motorista como chegar lá, só pra ter certeza. Ele me disse que no domingo não havia linhas indo pra lá. Que o ônibus pararia na estação, mas da estação até o endereço era uns 40 minutos andando. Expliquei que perdi umas sacolas e precisava ir buscar. Então ele disse “meu carro fica lá, essa é minha última rota hoje. Eu tenho que deixar o ônibus lá e pegar meu carro, se você quiser, fica dentro do ônibus que eu te deixo lá “. Sem nem pensar duas vezes concordei.

 

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Honestidade Neozelandesa

Passada a última estação, todos desceram. Eu fiquei no ônibus e ele como havia me prometido, me deixou lá no escritório. Não só recuperei minhas sacolas, jaqueta e documento, como também eles colocaram os itens de geladeira dentro do frigobar deles pra conservar! Parecia tudo perfeito “que país maravilhoso” eu pensava “que dia de sorte”. Aí eu fui perguntar aonde eu poderia pegar um ônibus pra voltar então ela me disse que não havia mais nenhum ônibus. Isso mesmo, 8 horas da noite de domingo e nenhum ônibus naquela região. Ela me aconselhou a ligar pra alguém vir me buscar. Mal sabia ela que não tinha ninguém que pudesse ir me buscar. Não falei nada, mas fiquei lá uns 10 minutos pensando no que eu iria fazer sendo que nem internet eu tinha pra saber o caminho de volta pra casa.

 

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Já estava planejando sair andando e contar com a sorte de achar algum lugar com wifi. Assim eu podia baixar o aplicativo do uber pra ir pra casa, porque andando seriam umas 2 horas, ou mais. Quando eu estava deixando o escritório aquele mesmo motorista que me deixou lá estava indo embora. Ele perguntou porque eu ainda estava lá e eu expliquei a situação. Ele então me disse “eu te dou uma carona”.

 

Um sentimento de gratidão inexplicável

Mais uma vez, sem medo nenhum, aceitei. Ajudei ele a colocar agua no carro pra funcionar enquanto ele falava sobre a rotina de dirigir 12 horas por dia 6 dias na semana. No caminho ele foi contando sobre como foi morar na Coreia. Também falou sobre quando ele vistou Portugal em algum ano que eu nem mesmo era nascida. Eu estava tão feliz e surpresa com tudo aquilo. Agradeci tantas vezes que ele me perguntou por que eu estava tão surpresa, perguntou se isso não aconteceria se fosse no Brasil. Com dor no coração, tive que dizer que não. Que talvez alguém devolvesse algum item perdido, mas ficar num ônibus só com o motorista depois da última parada e depois disso pegar carona pra casa com ele, eram coisas que nem em sonho uma mulher poderia fazer no Brasil.

Uma experiência que tinha tudo pra ser ruim, se tornou uma lembrança inesquecível

Não é a toa que a ONU elegeu a Nova Zelândia como o oitavo país mais feliz do mundo. Se na noite anterior fui dormir preocupada e me culpando por ter esquecido as sacolas no ônibus, na noite seguinte fui dormir super feliz de ter tido a oportunidade de passar por aquilo. De, mais uma vez, poder contar com a honestidade neozelandesa. De poder contar com a prestatividade deles e com o respeito que eles tem com as mulheres. E quando eu dormi, sonhei com a possibilidade de um dia o mundo todo ser assim.

 

Pâmela Vicente

Pâmela, aos 20 embarcou pra uma viagem que mudaria sua vida pra sempre. Conheceu o mundo lá fora e não parou mais. Se descobriu. Descobriu que é possível ser feliz 7 dias por semana ainda que a vida seja uma loucura. Quer compartilhar tudo o que vê e vive. Espera que compartilhando, inspire outras pessoas a serem felizes 7 dias por semana.

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